top of page

Pele de Bicho: Intimidade entre estranhos

Bruno Duque


A exposição "Pele de Bicho: intimidade entre estranhos" de Thatiane Mendes é derivada de sua investigação artística sobre seres vivos pequenos e microscópicos. Observação e imaginação alimentam o repertório da artista, que mescla cerâmica e têxteis com bioplásticos e plantas medicinais: técnicas e conhecimentos milenares com novas tecnologias ecocentradas. O imaginário da artista é originado de observações de insetos, de imagens de microscópio e de literatura ecofeminista. As obras resultantes trazem nuances entre o visível e o invisível.

As esculturas e instalações se conectam com o ambiente e com as outras obras, quase formando um ecossistema. Materiais amalgamados representam seres com suas partes, enquanto estes se relacionam uns com os outros em um sistema aberto. Para além do caráter contemplativo, aspectos invisíveis são igualmente relevantes: algumas peças foram vestidas pela artista e a maioria delas foi tingida ou produzida utilizando plantas com características medicinais. Estas construções são documentadas e podem ser acessadas nas redes sociais da artista.

Thatiane, que vem produzindo obras de arte vestíveis há alguns anos, na presente mostra exacerba sua investigação e produção em técnicas tradicionais. As produções têxteis e a cerâmica, mescladas com outros materiais, encontram equivalência em nos tecidos dos microcorpos que a artista examina. Muitas vezes os bichos tecem a sua própria casa, roupa, casulo. A partir desta premissa, roupa, pele e outros tecidos não só envolvem o corpo como o constituem. Ao mesmo tempo, a pele é habitat de outros bichos. A oleosidade da pele, a dureza dos ossos, a maciez dos pelos, as cascas quebradiças que se formam nos processos de cura, as peles trocadas e respostas, líquidos e colas viscosas que unem camadas de tecidos orgânicos: esses são algumas das formas e ideias que encontramos representadas nas obras da exposição.

A pele e a dobra são elementos que estão presentes em muitos momentos dessa exposição. Na dobra há tensão, mudanças de estruturas, de superfície, de direção. As transformações são latentes. A pele estriada, curvada, acumulada, se estica e cobre como uma película protetora, guardando todo o interior, recipiente que porta outras histórias dos materiais. Nesta exposição a pele é apresentada em diferentes estruturas e tonalidades: clara, escura, translúcida, opaca; sempre com cor de alguma planta como cúrcuma, pariri, barbatimão, ou algum mineral com propriedades medicinais. A heterogeneidade de materiais com suas diferentes propriedades faz analogia aos corpos e seus diferentes tecidos.

Examinar seres no microscópio envolve uma certa assepsia. O observador tem diante de si não apenas o que deseja observar, pois a visão engloba ainda um microambiente de metal, vidro e foco de luz. Esses materiais, que estão presentes no campo visual da artista durante a pesquisa e guardam alguma semelhança com o laboratório, também aparecem em algumas das obras como elementos compositivos.

Por vezes elas apresentam uma ampliação de microformas. Outras vezes é a acumulação destas formas que as torna visíveis, como acontece na série biomas invisíveis, na qual a artista apresenta colônias de bactérias em placas Petri tornando-as visíveis.

A mostra apresenta as séries "Biomas Invisíveis", "Camiles", "Micro-monstros" e "Encapsulados Medicinais", todas criadas entre os anos de 2019 e 2024. @thatiane.mendes Todas essas séries confluem para um modo de trabalho que transita entre a ciência biológica/eletrônica de monitoramento realizada em laboratórios, e a ciência doméstica, comumente reservada ao espaço da casa. Como parte de seu processo, a artista procura utilizar de narrativas de "ficção especulativa" como uma ferramenta para trazer à tona esses protagonistas não humanos, destacando seus corpos alternativos e os mundos possíveis que habitam.

A série Camiles: crias do composto foi inspirada na estória de mesmo título criada por Donna Haraway como forma de homenagem às borboletas monarcas, uma espécie ameaçada de extinção, que na história, tem seus genes misturados com os de seres humanos, visando remediar certos lugares em ruína.

A matéria, seja ela vegetal, animal ou mineral, é empregada por Thatiane, como um corpo. Um corpo que sai de outro corpo, resquícios de transformações matéricas.

Micro-monstros invisíveis é composta por 8 “seres têxteis", em que se procura investigar como os nossos medos estão, muitas vezes, relacionados a coisas invisíveis ou que de algum modo desconhecemos. Como escreve Donna Haraway (2022), em Quando as espécies companheiras se encontram:

Biomas invisíveis é outra pesquisa sobre a interdependência entre os corpos, não só humanos, mineral e vegetal - seres vivos. Dispositivos de cerâmica foram vestidos durante uma faixa de tempo de 3 a 8 horas, a fim de tornar visível a interdependência entre seres microscópicos que habitam sua pele e seu corpo. A partir desse cultivo, a artista procura tornar visível uma "intimidade com estranhos" que talvez muitos preferem esconder, um registro vivo sobre seu corpo, algo que pode parecer escatológico, escorregadio, com fungos e bactérias: os vilões e os monstros para a vida humana.

A série Encapsulados Medicinais é constituída de têxteis/vestíveis compostas de bioplásticos a base de ervas medicinais, metais e linhas de algodão. Nesta série é apresentado o envolvimento da artista com a "medicina doméstica” apreendida pelas gerações de mulheres de sua família: chá de algodão para curar as feridas da pele; chá de romã para dores na garganta; melhorar o sono e acalmar com chá de hortelã e a cidreira; para a gripe, o manjericão; para o coração, o alecrim. Muitas dessas indicações sociais, heranças de um conhecimento científico perpassado por gerações de muitas mulheres, foram encapsuladas pela indústria farmacêutica. Curar-se e curar o outro a partir de plantas medicinais é um "cuidado antigo”, advindo do encontro de benzedeiras, curandeiras, com as plantas.

bottom of page