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Geopoética da lembrança: pensando com as mãos de Frankilina 

Por Juliana Pautilla

Um aglomerado têxtil que remete à uma topografia instalada na memória da artista. Uma topografia suspensa que é feita de fios, barbantes e crochês, atrelada-emaranhada pelas lembranças da bisavó. Um corpo inventado, imaginado, de crochês remanescentes, esquecidos nas gavetas familiares, como arquivos domésticos e agora re-tecidos pela bisneta, Thatiane Mendes.

A feitura desses crochês é geometricamente calculada, ponto a ponto, apertados, conferindo uma matemática urdida pelas mãos das ancestrais. Revelam resistência, uma política de cuidado, de tempo e criação da vida. Thatiane reconta essa história, criando outros modos de fiar e entrelaçar, menos matemáticos, produzindo mais vazios e caos. 

A obra que tem o nome da bisavó, Frankilina Mendes, é composta por 12 peças de crochês, a maioria delas advindas da família da artista e outras garimpadas em bazares beneficentes, que são costuradas entre si usando especificamente o ponto alto de crochê. Forma uma espécie de placa tectônica corporal, que se mantém suspensa sobre finas hastes tubulares de alumínio, de 8 mm de diâmetro, medindo diferentes alturas (entre 50cm e 2m do chão), postas em duas fileiras, uma ao lado da outra. Por apresentarem tamanhos distintos, dão aos tecidos entrelaçados, uma topografia (diferentes altitudes). Essa malha suspensa produz uma sensação de fragilidade e resistência. Frágil porque composto de linhas e espaços vazios, entre correntinhas, pontos altos e baixos, mas resistente na memória que fica, de geração em geração. 


A sensação de ausência – a artista sabe pouco de sua bisavó que faleceu com apenas 30 anos – está presente na obra através das suspensões e dos espaços entre os fios de barbante que a artista usou para unir os crochês.  Remete de algum modo ao vazio da paisagem do cerrado mineiro, o corte quase horizontal na terra revelando o vasto céu, a imensidão que os olhos não alcançam, sem limites demarcados. 


A palavra garimpada, usada para dizer de uma parte do processo do trabalho que é de coleta e reuso de peças de crochês, tem ainda uma proposição geopoética no processo de feitura da obra, porque nela geografia, política, corpo, imaginação e poesia se fundem, pela ressignificação do minério de ferro na composição do trabalho. Thatiane faz o tingimento das peças a partir do cultivo e oxidação de produtos descartados compostos do minério, corroídos pelo tempo, como pregos, arames, utensílios domésticos, e depois imersos em uma solução líquida de água e vinagre em pote de vidro.

Ao imergir os têxteis por vários dias nesta solução, eles revelam tons terrosos, de ferrugem. O que funciona como um tipo de mordente, que é uma substância associada à manutenção, durabilidade e resistência da pigmentação nas peças. O tecido depois de passar pelo mordente fica mais apto também a morder outras cores. Assim, depois do banho com a ferrugem, as peças são colocadas em outra solução com água e argila rica do mesmo minério. O que remete também ao modo que a artista pensa a materialidade do minério de ferro, para repensar seu uso, importante caminho, sobretudo em Minas. 

É interessante perceber que a produção que Thatiane vem desenvolvendo, o estranhamento está sempre presente, principalmente pelas materialidades, muitas vezes irreconhecíveis ao final da obra, porque é ela mesma quem as inventa – a artista é professora na Escola de Design da Uemg e cria entre o laboratório e o ateliê. As temáticas da monstruosidade, da invenção de corpos, são recorrentes e remetem à ideia de multiespécies propostas pela bióloga Donna Haraway, como mecanismo de fabulação de outros mundos. As devastações impostas pelo homo modernus estão no seu limite, se pensarmos nos fatores complexos que suas ações têm provocado na Terra, seja em crimes ambientais ou na produção das catástrofes ecológicas. Haraway pensa que talvez não sejamos tão humanos quanto imaginamos, propondo reverter o pensamento que dicotomiza humano-natureza. 


No exercício da sua criação, Thatiane dialoga com a cosmovisão de suas ancestrais, para criar imagens, materialidades e corpos híbridos. Para isso permite que sua produção seja atravessada pelos modos de vida e histórias das mulheres de sua família. Segundo ela mesma diz:

Cresci envolta por tecidos e retalhos no ateliê de costura de minha mãe. E das memórias de minha avó, que contava que ela e sua mãe - minha bisavó - plantavam o algodão, colhiam, fiavam, teciam. Acredito que o têxtil tem de certo modo, um entrelaçamento com a paisagem, com as montanhas, com essa herança ancestral, com as memórias de mulheres que também plantavam, cultivavam e costuravam muitas histórias. É um fazer com as mãos, um pensar com as mãos, também um estado de contemplação da paisagem e de estar consigo mesma, um estado alterado de consciência, por meio da repetição de um gesto, tecer, tecer. Estado de sublimação, um mesmo sentimento que talvez, muitas pessoas tenham ao criar seus tecidos domésticos, um modo de resistência

De todo esse processo aqui relatado, o trabalho de Thatiane encontra um paralelo com a ideia de cultivo. Do que é necessário cuidar, acompanhar, conviver, do tempo que cada matéria precisa para se materializar e de como os espíritos, no sentido da pura criação, marcam sua presença. 

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