Bruno Duque
Traças constroem casulos com restos de tecidos e detritos. Caranguejos-ermitões vestem conchas ou outros objetos duros que tenham boas medidas, que caibam seus corpos naquela etapa de suas vidas. Em outro momento, eles abandonam as exúvias, que eram partes do seu ser.
Exúvias, termo que dá título à exposição, faz referência às partes de certos insetos e animais que são usadas durante certo período da vida e posteriormente são deixadas para trás, tais como casulo, exoesqueleto, peles, entre outros excertos. A palavra do latim exuviae significa “camisa” ou “pele vazia”.
Tudo no universo tende a se desorganizar, se desinformar e tornar-se pó. Mas não se depender de qualquer forma de vida. O João de barro contraria a segunda lei da termodinâmica ao construir sua casa com o pó, retirado do final do ciclo entrópico.
No ateliê da Thatiane Mendes, passarinhos coletam materiais diversos para construir seus ninhos, enquanto a artista mistura tecnologia têxtil ancestral com biotecidos sintéticos, cerâmica, plantas medicinais, microorganismos e outros materiais, que eventualmente entram no seu repertório. Alguns elementos são facilmente reconhecíveis e outros são novos para o repertório de muitas pessoas. A maior das matérias-primas é criada pela própria artista. E uma parte das peças têxteis, como panos, croches e outros, é apropriada e ressignificada. São composições que amalgamam técnicas, processos, materiais, vivências e resultam em casulos, peles, exoesqueleto, para transmutar suas ideias e projetos.
Apresentando a produção mais recente de Thatiane, iniciada já em 2019. Exúvias apresenta quatro conjuntos de esculturas, nas quais a artista cria peças que apresentam seres e partes de seres imaginários, além de colônias reais de microorganismos coletados de seu próprio corpo.
Micromonstros invisíveis é composto de grandes seres lúdicos, delgados, quase bidimensionais, feitos de tecido, bioplásticos, espumas, crochês e corantes originados de plantas medicinais. A série foi originada da relação da artista com seu filho em momento de superação do medo de monstros e os jogos de imaginação que faz com ele.
Monstros Algor utiliza “algor”, um derivado do colágeno, para criação de peles que formam outros monstros. Nessas peças, Thatiane dá continuidade a seu projeto de criação de peles sintéticas e organossintéticas, assim como à sua pesquisa sobre uso de plantas que promovem a cura, que estão embutidas nas “peles dos monstros”.
Filomena foi inspirada na narrativa futurista Histórias de Camille, de Donna Haraway, na qual Camille nasce da junção dos genes de borboletas-monarcas (espécie em ameaça de extinção) com genes humanos. São compostos por seda, rendas, “bio peles de algas”, além de cerâmicas e tubos metálicos.
Na série Biomas Invisíveis, a artista captura e multiplica microorganismos, fungos e bactérias que habitam seu corpo e os apresenta em placas de Petri junto dos aparatos de cerâmica que criou para coletá-los. No processo, pedaços de argila foram moldados e usados em diferentes partes do corpo. Após as queimadas, as cerâmicas foram usadas pela artista para coletar estes micro-seres, que foram cultivados e apresentados como colônias visíveis em placas de Petri.
As séries Biomas invisíveis, Micro monstros invisíveis, Filomena e Manifesto Multiespécie são resultados de um processo de convergência entre suas experiências cotidianas, sua vida profissional, sua vida afetiva, a maternidade e sua ancestralidade, que se cruzam com um imaginário inspirado em registros de vida microscópica, explorando reinos da estranheza para ativar a atenção e imaginação.