Natalia Rezende
Sobrevivemos enquanto humanidade, na Terra, por um mecanismo que nos permitiu sonhar e fabular modos de vida: imitamos as redes de interação das plantas, dos insetos, dos seres microscópicos e dos animais de outras espécies. Foi assim que desenvolvemos uma multiplicidade de artifícios técnicos, como os têxteis e a medicina, cujas origens, podemos imaginar, remontam à observação dos ninhos dos pássaros e à escuta xamânica dos espíritos dos vegetais. As obras da artista Thatiane Mendes se nutrem deste emaranhado de relações entre diferentes existências ‒ sua produção propõe um convívio cósmico que nos recorda, por muitos meios, que somos corpo-colônia de seres e saberes, e pertencemos a um ciclo ininterrupto e recombinado de metamorfoses.
O convívio é cósmico porque Thatiane transita do micro ao macro, do imediato ao latente, do ancestral ao contemporâneo, desdobrando-se entre mundos particulares e compartilhados sem esquecer que toda categorização se trata de uma perspectiva limitada e hierarquizante. Ao eleger a cozinha como laboratório alquímico e a lâmina microscópica como jardim familiar, a artista faz frente à desvalorização das epistemologias tradicionais, produzidas e preservadas por corpos historicamente invisibilizados (e aniquilados), especialmente aqueles atravessados pelas violências de gênero. Este engajamento se evidencia, ainda, nos procedimentos em que aciona a alta tecnologia das crenças populares e expõe a desigualdade fundamentada na cristalização do conceito de técnica, como afirma o filósofo chinês Yuk Hui. Há cosmotécnicas, ele nos diz, e os gestos sensíveis de Thatiane querem romper com as monoculturas do pensamento, cujas consequências se concentram numa grave cadeia de extinções.
Espelhando-se na vida de organismos invisíveis à nossa percepção, a artista toma o próprio corpo como campo experimental e multiplicável: ela extrai pigmentos das ervas, incorpora fungos, tece hifas, costura moléculas, nomeia pelo bordado e alinhava dispositivos eletrônicos ao pulso vital dos materiais. Neste convívio diário, catalogado pela memória celular dos corpos e pela linguagem numérica da programação, a dimensão plástica das formas é quase sempre conduzida por agentes químicos curativos. Os saberes-fazeres escolhidos por Thatiane desviam-se, portanto, do rito industrial das máquinas, enveredando-se pela sobreposição restaurativa das dinâmicas orgânicas: o tecido que vem da fibra vegetal, por exemplo, parece retornar ao ponto iniciático da semente para, enfim, seguir o curso de sua transfiguração. A linguagem têxtil aparece, aqui, como afirmação crítica das urgências e potências que envolvem os ofícios artesanais, tensionando as assimetrias de valor estabelecidas entre materiais e técnicas ao longo da História da Arte.
Na cultura de obras que a artista alimenta e com a qual é alimentada, ativa-se, finalmente, uma experiência multissensorial em contraponto ao desestímulo de certas ambiências virtuais: as texturas têxteis, a transparência dos biopolímeros, o aroma dos chás e o enraizamento frágil, mas profuso, dos micélios convidam os sentidos ‒ nossos e dos seres com os quais fazemos corpo ‒ à imaginação cósmica do futuro. Um futuro mais entrelaçado, mais palpável, onde as formas se redesenham e crescem mutuamente, fertilizando novos modos de ser e estar em relação.